sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Rock and run

Eu sei bem quem eu sou.
Sei bem as coisas das quais gosto e o tipo de pessoa com quem dou-me bem.

Gosto da energia do corpo. Gosto de suar.
Gosto de sentir-me dona do meu corpo. Gosto de comandar pernas e braços
Gosto do movimento do corpo, da força muscular.
Gosto do exercício do corpo, da habilidade corporal.
Gosto de sentir-me forte, saudável.

Vivo descobrindo novos prazeres.
Dentre eles, um dos maiores que descobri, já há vários anos, é o prazer de correr.
Gosto de correr pelo correr. Deslocar-me rapidamente sem precisar de nada além das minhas próprias pernas.
Sentir-me dona do meu corpo, rainha da minha vontade. Contra o cansaço, mais um pouco de energia.

Eu treino. Mas não gosto muito de treinar. Treino somente para poder correr mais e melhor.
Eu gosto mesmo é de correr.
Livre, no compasso.
Na minha respiração e com a minha transpiração.

Adoro participar de corridas de rua. Coloco o meu Ipod e me perco entre os corredores, tão diferentes e tão iguais.
Sábado à noite, domingo cedinho...somos tão diferentes, nós os corredores, mas também tão iguais. Porque só nós sabemos o prazer imenso disso...

Mas o que eu amo mesmo é correr em Pirassununga.
Lá eu corro faça sol ou faça chuva.
É como um rito sagrado. Nada me impede e a rua me chama.
Eu corro em adoração às ruas amadas da minha cidade. E vou agradecendo...

Saio de casa, ligo meu Ipod e vou, com meu rock and roll, me aquecendo Joaquim Procópio abaixo. Passo em frente à casa velha, acaricio os portões, respiro fundo e preparo-me para subir a 13 de Maio. Batimentos cardíacos em crescente, subo até o final de minha cidade, entro nas ruas da Cidade Jardim, respiro, transpiro e acho o meu Nirvana pessoal.
Nessa hora não tem mais dor, nem mais respiração ofegante. Sou só eu, a música e as minhas pernas.
Run, run, run...
E eu acho que posso atingir o ponto mais distante do mundo, só correndo, como Forrest Gump.
Run Forrest, run!!

Quando estou bem longe de casa, reverto o movimento e começo as passadas de volta. E refaço o caminho, por outro caminho, de volta à minha casa. Eu, minha música e minhas pernas.
E quando chego, após meus 10 quilômetros, já quero sair de novo.
Run, run, run...

Não sei bem como a corrida entrou na minha vida. Mas é um vício assumido.
Da minha vida esse vício não sai mais.

E as ruas de Pirassununga me esperam. Amanhã estarei lá e assim que chegar, vou correr.
E eu só vou agradecendo...

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Carpe diem

Ter 39 anos e a certeza que ainda nem cheguei lá...
Ver meu Joey fazer o sinal de positivo e dar seu sorrisinho lindo a cada foto que vou tirar dele.
Ver no meu Luigi sinais inequívocos de "criança grande", mas ainda vê-lo, inúmeras vezes, reagir como meu eterno bebê.
Perceber neles os meus olhos, ou os olhos do Klau, ou o humor do meu irmão, ou a obstinação do meu cunhado.
Meus cachos nos cachos do Luigi.
A boca do Klau na boca do Joey.

Ter já alguma serenidade, e por tantas vezes, não ter serenidade alguma.
Fazer planos e saber, na tranquilidade, que nem todos vão se concretizar.
Dormir bem, beber bem, comer bem. E bem acompanhada.
Fazer promessas e escorregar às vezes.
Pedir desculpas, e mais desculpas, e mais e mais...e ser desculpada.

Correr cedinho, com meu Ipod e minhas músicas. Rasgar o vento, correr até doer.
Descobrir novos prazeres.
Fazer planos para um curso de fotografia no futuro.
Fazer planos para cozinhar no final de semana. Escolher as receitas.
Dançar. Dançar na aula, dançar conforme manda a Helô. Descobrir minhas próprias formas, minhas próprias fórmulas.
Descobrir a dança. E dançar!

Fazer amigos.
Retomar antigas e grandes amizades. Ter a certeza que o tempo, para nós, não passou.
Ver minhas amigas.
Ser capaz de ver nas minhas grandes amigas os meus próprios traços.
Após tantos anos, somos como irmãs.
Somos cúmplices e não falhamos.
Somos cúmplices e não falamos. Apenas sabemos.

De repente, ter algo também para ensinar, além de tudo a aprender.
Ser dona do meu nariz.
Ser ouvida.
Ser essencial para alguém.
Não ser a pessoa mais importante do mundo, nem para mim mesma.

Fazer planos de ter uma cachorrinha. Escolher o nome.
Pensar em como o Joey vai ficar feliz.
Pensar na proteção, no carinho, na ternura...para ela também.
Mais alguém na nossa casa.

Ganhar um beijo, ou dois, ou três, quando chego em casa.
Ser a confidente dele.
Confidenciar para ele.
Saber quando ele está de mau humor.
Saber quando eu estou de mau humor.
Rir das percepções.
Não levar as brigas a diante. Só um pouquinho...

Ouvir : "Mamanhê!"

Ir ao cinema, sair para dançar, tomar cerveja com os amigos, tomar vinho lendo o jornal na sexta feira à noite.
Viajar.
Antecipar o verão. Sentir saudade do verão em pleno Julho.
Pegar um bronzeado e usar biquini o dia todo.
Tomar suco bem gelado.
Passar o dia todo no clube.
Passar o dia todo na piscina do meu pai.
Nadar!
Ver o mar!
Respirar!

Encontrar os meus irmãos.
Ser quem eu sou.
Estar com meus pais.

Compartilhar livros.
Baixar músicas. Comprar cds.
Ouvir Bowie, ouvir Prince, ouvir Ramones, ouvir Lou Reed, ouvir Frank Black. Ouvir Caetano.
Ir à um espetáculo da Deborah Colker.

Gostar de trabalhar.
Gostar de acordar cedo e respirar fundo.
Sentir minha musculatura. Sentir-me 100%.
Morar em São Paulo. E adorar!

Ter a sorte de um amor tranquilo. Imprevisível e tranquilo.
Saber-me amada. Saber amar.

O melhor lugar é aqui e é agora.
O melhor lugar é ser feliz.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

O Terceiro

Sou mãe de dois filhos.
Eles são tudo o que eu tenho.

Sempre quis ser mãe. Nunca me passou pela cabeça não sê-lo. Os dias de nascimento dos meus filhos foram os momentos mais felizes da minha vida.
Não gosto quando eles não estão comigo, preocupo-me e não sossego enquanto eles não estão de volta à onde sempre deveriam estar...sob minha asa.
Meus filhos são como milagres para mim. Agradeço todos os dias a alegria suprema e o privilégio imenso de tê-los.

Após o nascimento do Joey, meu caçula, nunca considerei que meu papel, quanto a "ter filhos", estivesse concluído.
Sempre quis ter mais um.
Sempre achei que 3 é um número bem legal.

Minha vida é bem simples. Não almejo grandes posses, sinceramente.
Moro em uma casa legal, mas sem luxo algum.
O lugar que eu mais amo no mundo é Pirassununga, que fica só a 2 horas de viagem daqui.
Não preciso de nada, além de um bom tênis, para fazer uma das coisas que mais gosto na vida, que é correr.
As minhas aulas de ballet são o único "luxo" que tenho.
A comida que eu mais gosto é arroz e feijão. Qualquer coisa, com eles, para mim está ótimo.
Tenho tudo o que preciso.

Meus filhos vivem assim como eu. Não são crianças cheias de vontade, e quando as tem, eu os desencentivo a tê-las.
Apenas faço questão de que eles estudem em uma escola de 1ª linha.
E eles estudam em uma escola excelente...excelente e muito cara.

Atualmente, não temos condição, aqui em casa, de ter um terceiro filho e manter o mesmo padrão de escola para os meninos. E fazemos questão da excelência do ensino.
Tenho 39 anos e não tenho muito mais tempo para engravidar...portanto, durante um período, achei que teria meus 2 filhos somente, a despeito de ver-me, sempre, como uma mãe de 3 filhos.

No último Dia das Mães fiquei, como sempre, emocionada com as propagandas a respeito do Dia e com as fotos de mães segurando seus bebês. Fiquei triste imaginando que nunca mais seguraria no colo um bebê que fosse meu, justamente eu, cujo colo serviu de cama, inúmeras vezes, para meus filhos (e serve até hoje).

E de repente, tive uma idéia. Acho que a melhor idéia que tive na vida.
Afinal, eu não tenho condições, agora, de ter outro bebê. Mas no futuro terei.
E meu terceiro filho não precisa vir da minha barriga. Ele pode, certamente, vir do meu coração.

E como em um banho quente em um dia de frio extremo, essa idéia tácita invadiu meu pensamento e tornou tudo tranquilo e confortável.
No futuro, quando os meninos estiverem mais crescidos e nossa vida mais estabilizada, meu terceiro filho chegará.
Eu vou achá-lo, com certeza. Vou saber quando ele chegar, e vou buscá-lo, onde ele estiver.
E esse meu colo vai poder matar essa sede imensa...

Não prefiro menina ou menino, branco ou negro...meu bebê já é meu, onde quer que esteja, esperando para, no futuro, nascer.
Gosto de pensar que atualmente ele está no colo da minha vó Maria, no Céu, esperando seu momento de vir para a gente.
Gosto de pensar assim.

Algumas pessoas dizem que eu não vou dar conta de sustentar esse plano; dizem que, com o passar do tempo, à medida que meus meninos crescerem, eu vou ter mais liberdade para cuidar da minha vida e não terei disposição para começar tudo de novo.

Mas isso não vai acontecer.

Sei disso porque não tenho as pretensões que a maioria das pessoas tem.
Eu não quero ter liberdade de ir e vir.
Eu não faço questão de viajar, nem de ir a bons restaurantes, nem de poder dormir até tarde ou sair para dançar.

Meu terceiro filho é muito mais importante que tudo isso.
E eu não vou abrir mão dele.
E minha mãe me disse que eu estou certíssima. E era tudo que eu precisava ouvir.

Agora fico calma e tranquila por saber que tudo está só começando, que à medida que meus meninos crescem, eu só estou, cada vez mais próxima daquele que ainda não conheço, mas já amo.

domingo, 19 de julho de 2009

Canaã na Vila Caiçara

"Comparada aos desertos circundantes, a terra de Canaã era uma terra de fartura, onde havia uvas e outras frutas, azeitonas e mel, daí ter sido vista por Abraão - originário da região do atual Iraque - como a "terra prometida", "onde corre leite e mel".

Eu gosto muito de praia e mar. Sempre gostei. Meu pai também.
Durante toda a minha infância e anteriormente, durante toda a infância dos meus irmãos, tivemos uma casa de praia, mais precisamente na Praia Grande e mais precisamente ainda, na Vila Caiçara.
Íamos sempre que podíamos, o carro lotado de bagagem e obviamente lotado de gente.
Levávamos comida, leite, travesseiros e eu, particularmente, levava a minha imensa vontade de mergulhar naquele marzão.

Naquela época, a Praia Grande não era, de forma alguma, o que é hoje. Poucas casas, ruas de areia e uma vastidão de área vazia, sem pessoas, de frente ao mar.
Naquela época, a viagem por si só era uma grande aventura. Para chegarmos à praia, tínhamos que entrar na cidade de São Paulo, à qual ninguém estava habituado. Meu pai mandava todo mundo calar a boca, desligar o rádio e ler as placas, para que não nos perdêssemos.
E nos perdíamos.

Descíamos a Serra do Mar e, lá pelas tantas meu pai, invariavelmente, dizia : "Ué, acho que os freios não estão funcionando".
Eu amava!

A Praia Grande era nosso destino certo, no verão e no inverno também.
Talvez por isso eu goste tanto de praia, faça calor ou frio. Gosto da umidade grudando na pele, do cheiro da maresia, de pisar na areia e sentir as ondas batendo nas costas.

A Praia Grande era nossa, só nossa.
Nossa e da nossa barraca listrada de vermelho e branco.

Ontem, eu, o Klau e os meninos resolvemos ir para Santos, visitar o Aquário. Descemos pela Anchieta, ao invés de descermos pela Imigrantes.
A pista mais estreita, a proximidade da encosta, me lembrou de alguma forma, das minhas idas à Praia Grande, em minha infância.

Lendo as placas que se sucediam na estrada, perguntei ao Klau se poderíamos passar na Praia Grande para que eu visse, mais uma vez e depois de mais de 15 anos, a nossa antiga casa da praia, que há muito meu pai havia vendido.

Custamos muito a achar a rua, porque eu já não me lembrava ao certo da entrada correta, e estava procurando no lugar errado. Mas perguntando para as pessoas na rua, felizmente citei o nome Vila Caiçara e me informaram que eu deveria seguir adiante, beirando o mar, que chegaria no lugar.
Assim fizemos e após uns 5 quilômetros, avistei a Avenida Maringá, que de avenida não tem nada, sendo uma rua simples.
A rua está agora asfaltada.
O terreno baldio que existia na esquina da minha casa agora abriga uma construção que, ironicamente, já está velha.
Mas a nossa casa está la. Avenida Maringá, 450.
Ela foi reformada pelo meu pai alguns anos antes de ser vendida e está em bom estado de conservação.
E está à venda!

Meus filhos no carro não entendiam porque havíamos desviado de nosso caminho original só para ver a fachada de uma casa.
Acho que tampouco meu marido entendeu. Somos tão diferentes nesse aspecto.
Mas apesar dele não entender, ele sabe dessas minhas necessidades e, mesmo nos perdendo, e tendo que pedir informações na rua, e eu tendo que ligar para meus pais e para minha tia para confirmar o endereço...ele me levou lá.

Enfim, a casa...a casinha da praia.
Desci do carro, tirei fotos, e a umidade grudou novamente na minha pele, e o cheiro da maresia invadiu minhas narinas.
E lembrei-me dos nossos almoços fartos, feitos com a linguiça do sítio, arroz e salada de tomate. Chegávamos da praia esfomeados e nos fartávamos com isso.
Lembrei dos litros e litros de água do mar que engoli, enquanto conversava com quem quer que estivesse ao meu lado, enfrentando as ondas da Praia Grande.
Cheguei a ir para o Hospital, de tanta água do mar que engoli.

E cantei de novo no chuveirinho externo, com porta de madeira pequena.
E comi churros no Centrinho com a Marisa.
E cochilei no sofá de plástico da sala.
E sujei o pé de pixe na areia da praia.
E dormi em beliche.

Na parte superior da fachada da nossa casinha de praia havia uma placa, onde se lia "Canaã".
Pensando hoje, percebo a perfeição desse nome.
Nossa casinha na praia não era grande, ao contrário. Era uma casinha simples, pequena, geminada, onde cabia uma família grande, cheia de crianças.
Nossa casinha na praia não era localizada em praia chique, mas a imensidão de areia que lá existia para corrermos não se encontra em outro lugar.

Canaã quer dizer terra de fartura.
E era isso que tínhamos lá.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Que pena...

Quando muito já foi dito, muito já escrito...fico triste.

Falo para o meu filho que não importa o quanto maluco ele era, não mais.
O quanto não se aceitou, ou o quanto se desbotou...não importa!
Quero dizer para o meu filho que o importante era a música, a voz e a dança...acho que principalmente a dança.
Esqueço de toda a bizarrice...meu filho é pequeno e não quero que se atenha ao superficial, mas sim à dança, à dança dele.

Quero que saiba que aos meus 14 anos, eu gastei todas as minhas meias fazendo moonwalk em todos os lugares... corredores da escola, quintal da minha casa...moonwalk baby!

Quero que saiba que ninguém da minha idade, ninguém no mundo todo, foi indiferente a ele.
Quero evitar que meu filho atenha-se à bizarrice.
Esqueçam o superficial, vamos focar na falta que ele vai fazer.

Eu queria dançar como ele. Aos 14 anos, eu só queria dançar como ele.

Atenção para a arte, ele era um artista, um bailarino. Perfeito.
Respeitem seu talento!

E falam de como estava, de quanto pesava, de seu cabelo, da sua pele, de sua herança, de sua dívida, de seus filhos...
Eu só me interesso por sua dança.
Moonwalk baby!

Quando teremos outro cara como ele? Quantos séculos serão necessários?

O mundo sem ele está estático. O mundo, sem sua dança, está triste.

Keep moonwalking baby.
Moonwalk Michael!

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Ashes to ashes

Nasci e cresci em uma única casa.
Para quem é canceriano, como eu, isso tem um peso enorme.
A criação de raízes é fator determinante na felicidade e tranquilidade de um canceriano.
Sou nascida em 26 de Junho, o que faz de mim uma canceriana, com toda a necessidade de raízes típica dos meus similares.
Não é fácil nem leve ser assim, mas essa sou eu.
Minha mãe nasceu e cresceu nessa mesma casa.

Nasci e cresci na Rua Joaquim Procópio de Araújo, 1875, em Pirassununga. Essa casa já teve outros números, quando de mudanças de numeração da rua (já foi número 85, presumo, e já foi número 1661, tenho certeza). Mas o número 1875 acompanhou-me por grande parte dos anos da minha vida.
Minha casa era uma construção grande, espaçosa, com inúmeros quartos ( o que sempre foi motivo de piada entre meus amigos, afinal, como abrigar tantos irmãos sem ter inúmeros quartos?), confortável e acolhedora.
Havia um campo de futebol no fundo da casa que, quando eu tinha mais ou menos 9 anos, foi transformado na mais deliciosa piscina, onde pude desenvolver meus laços aquáticos com meu pai nadador.

Havia uma mangueira no centro do quintal, e quando a árvore dava flores, o quintal ficava repleto com a florada dela.
Minhas cachorrinhas eram comedoras de manga, e cada fruta que caía do pé era prontamente devorada por elas, e depois só encontrávamos o caroço.

Minha casa tinha passagens em cantos diferentes, uma para a casa da minha vó e outra para a horta da Mina, que também nos levava à casa de minha tia. Portanto, minha casa tinha passagens para lugares de prazer imenso. Minha casa era um lugar de prazer imenso.

Meu quarto era repleto de fotos de cantores de rock e mesmo depois de adulta, as marcas da fita durex que eu usava para pregar os recortes fixaram-se de tal forma à parede que a lembrança das fotos tornou-as eternas.

Minha casa tinha o quartinho de música, com o piano, o violão, a vitrola (e depois o aparelho de som), a melhor coleção de LPs que já conheci, a máquina de costura de minha mãe e as diversas partituras de clássicos.
Minha casa tinha a figura de todos nós, os filhos, nos exercitando ao piano.
Mais que tudo, minha casa tinha a figura de minha mãe, ao piano, mostrando a todos nós como é que realmente se tocava o instrumento.

Minha casa tinha canteiros maravilhosos, cuidados pela minha mãe, cheios de antúrios e outras flores. Lembro do cheiro da água batendo no calçamento do quintal, quando minha mãe regava as plantas. Lembro do cheiro da água evaporando-se.

Lembro do som do chão pisado, graças ao porão que lá existia. Lembro do telhado, das calhas.
Lembro de tudo.

O quintal me serviu para muitas coisas. Lá joguei vôlei com as minhas amigas, lá joguei futebol com meu irmão, lá vi meus filhos armarem arapucas de papelão para pegar passarinhos...mais recentemente, lá dancei todas as minhas coreografias de ballet.
Lá agradeci, rosto voltado ao sol, as minhas possibilidades.
Eu lembro de tudo.

Nada conseguimos fazer para evitar a construção de dois prédios, um de cada lado de minha casa.
A casa tornou-se gelada, sem o sol entrando nela, e meus pais, mesmo sem querer, se mudaram.

A casa onde meus pais moram hoje fica na mesma rua, e é maravilhosa. Racionalmente é ainda melhor que a "casa velha", porque é mais bem planejada, é mais moderna e é realmente linda.
Estou muito feliz que meus pais estejam lá.
A casa nova também tem uma piscina linda, um jardim florido e um parquinho onde meus filhos se acabam.
Para uma canceriana, lidei muito bem com a mudança. Estava até orgulhosa de mim mesma quanto à isso.

Porém, há algum tempo atrás, cobriram a minha casa velha com tapumes. Mal dava para vê-la por entre eles.
E agora, recentemente, começaram a demolí-la.
Passei muito mal. Assumo, foi uma merda!

Escalei os tapumes e pude ver, através das paredes quebradas, a parede da sala, os corredores laterais, o jardim da piscina...e eu pude ver a parede do meu quarto. E por um instante, achei que tivesse visto as marcas das fitas durex que pregaram, por tantos anos, meus recortes dos cantores de rock and roll na parede.
Chorei, sofri e me senti uma boba.

Porque o que fica são as lembranças.
Meus pais estão vivos e bem, meus irmãos estão vivos e bem.

Mas que saudade da minha casa!

Quando eu morrer, se possível for, quero que alguém cuide para que minhas cinzas ou algo de mim seja depositado na Rua Joaquim Procópio de Araújo, 1875. Não me importa o que lá funcione e nem qual a construção que lá exista na época.
Só peço que alguém faça isso por mim, que deposite algo de mim em frente à minha casa velha.
O vento vai se encarregar de me fazer entrar...

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Esse ano vai ser nosso!

1986...
O ano de 1986 foi extremamente marcante em minha vida.
Eu fiz 16 anos em 1986.
Em 1986 eu iniciei o 1º Colegial, eu conheci amigos que se tornariam parte integrante de minha vida até hoje, eu experimentei sensações e porque não, atrações à parte.

Em 1986 eu ganhei o mundo.
Em 1986 eu comecei a gravar meu programa na rádio de Pirassununga (..."this is Rock and Roll Radio, stay tuned for more rock and roll!"), tendo como parceira uma irmã de uma vida. E eram LPs, e fitas K7, e manhãs de sábado dedicadas à gravação do programa.

A cada sábado, às 7 da noite, meu programa ia ao ar. Era a hora que nos arrumávamos para sair.
Meus amigos se arrumavam ouvindo o nosso programa. Era interior, era 1986, 8 horas da noite estávamos na rua. Saíamos cedo e voltávamos tarde.
Era bom demais.

1986 foi o ano que tornei-me mulher, quando descobri meus poderes e o peso deles.

1986 foi o ano que perdi minha vó Maria.
Minhas mais doces lembranças...só mais um prato de sopa com ela, é tudo o que eu pediria.

1986 foi o ano que antecedeu a partida da Marisa. Portanto, 1986 foi meu último ano com a Marisa, o que, por si só, torna 1986 um ano incrivelmente maravilhoso.
Se, por um acaso, eu tivesse tido a possibilidade de saber, eu teria a abraçado mais, telefonado mais, amado mais...isso com certeza teria me matado, mas eu a teria tido mais perto de mim.
O que me consola é que tenho certeza que ela sabe. Minha doce Marisa sabe, e sempre soube.
As duas, minha vó Maria e minha doce Marisa, guardam meu lugar perto delas, disso estou certa. E guardam também o lugar de todos a quem eu amo.

1986 foi o ano da turma "da pesada", uma gang de amigos de fazer tremer a cidade (ao menos eu assim imaginava). Grandes figuras, grandes amigos, grandes aventuras, grandes contravenções...de verdade, éramos "foras da lei".

1986 foi o ano que pixei o muro da minha escola. Apagaram no dia seguinte, mas a mancha ficou lá, ao fundo, por muitos anos.
1986 foi o ano que descobri, de verdade, o prazer em escrever.

1986 foi o ano do Postinho. Para quem lá esteve, a importância disso é gritante.

1986 foi o ano das Brincadeiras do Clube. Dançar em um sábado à noite ao som de Bowie, Cure, Ramones, The the, Siouxsie...realmente!

1986 foi o ano das festas da casa da Fer. As melhores festas da minha vida, rock and roll na veia, puro e simples, grosso e cru.

1986 foi o ano da Aeróbica do Daniel. Malhação pesada, semente plantada, inesquecível. O que sou hoje, no que diz respeito a esportes e à malhação, devo muito a ele.

1986 foi o ano que comecei a namorar o Klau.
Tudo truncado, tudo proibido, mas a gente insistiu.
Ninguém acreditava de verdade, acho que nem mesmo a gente, mas aos 16 anos eu comecei a namorar (escondido!) aquele que viria ser o pai dos meus filhos, o meu melhor amigo (ainda que nossas diferenças sejam imensas, e talvez graças à elas sejamos tão unidos), o amor de toda uma vida.
1986 foi o ano que, mesmo sem perceber, brigamos para ficar juntos, com nossas jaquetas de couro e nossos discos dos Ramones.
Foi o ano que começamos a correr juntos, com a Klein nos acompanhando, e que nossos laços passaram a ser feitos de aço.

10 anos depois nos casamos.
14 anos depois tivemos o Luigi.
16 anos depois tivemos o Joey.

E há exatos 23 anos vamos nos moldando, nos fundindo e nos tornando um só, um só formado por dois seres tão diversos mas tão similares também.
Mas nunca nos esquecemos de quem somos, e de que somos únicos e somos seres com necessidades distintas.
Foi essa percepção que nos uniu.

E vamos assim, fazendo nossos planos e aos poucos, conseguindo tudo o que queremos. Porque o que queremos não é tão complexo.
Nós só queremos saúde para nossos filhos e que eles sejam pessoas do bem.
Nós só queremos ter a oportunidade de ajudar quem está próximo a nós.
Nós só queremos que nossos pais estejam bem e sabemos que quando eles não estiverem bem, é nosso dever e nosso privilégio ajudá-los.

1986 foi o ano que me proporcionou viver, nos tempos modernos, uma verdadeira História de Amor.