Tem coisas (várias por sinal) que eu não consigo entender.
Mas tem outras que, após acontecerem, fico com aquela sensação de "eu sabia..."
Não que eu pudesse prever, nem nada disso, mas a coisa mostra-se clara de tal forma que fico surpresa por não ter visto com mais clareza anteriormente.
Eu e meu estrabismo habitual...
Sou corinthiana. Nada roxa ou dedicada, mas por homenagem ao meu pai, e talvez afinidade com um dos meus irmãos, escolhi ser corinthiana, ainda bem pequena. Tenho zilhões de irmãos, então futebol, em casa, sempre foi um assunto "importante".
Meus vizinhos também eram corinthianos. Mas lá, entre as crianças daquela casa, não havia a pluralidade de times que havia na minha casa. Eles eram, todos, corinthianos.
Isso era assim porque o pai deles era um corinthiano roxo, o maior corinthiano que já conheci, Seu Edgar.
Um grande homem, o Seu Edgar.
Duas filhas do Seu Edgar aniversariavam no mesmo dia em que se comemorava o aniversário de nossa cidade, Pirassununga. Era comum que, em todo dia 6 de Agosto, aniversário de Pirassununga (e das filhas do Seu Edgar) a banda andasse pela cidade, tocando o Hino de Pirassununga.
Durante vários anos, na minha infância, ouvi a banda parando em frente da casa do Seu Edgar, tocando o Hino de Pirassununga, emendando, logo depois, o Parabéns a Você (para as suas filhas) e finalizando com o Hino do Corinthians, em homenagem ao Seu Edgar.
Homem muito amado, o Seu Edgar.
Disso não me esqueço jamais.
Apesar de na verdade não ligar muito para futebol, sempre me julguei corinthiana, em função do meu pai e do meu irmão, mas hoje percebo que emocionalmente, em função do Seu Edgar também.
Porque era lindo demais ver a emoção dele com seu time do coração, e todo o folclore em volta daquele cidadão pirassununguense (o Seu Edgar não nasceu em Piraassununga, mas foi, sem sombra de dúvida, o mais pirassununguense dos homens).
E apesar de ter uma certa simpatia, hoje em dia, pelos times para os quais meus filhos torcem, mais do que nunca me digo corinthiana, em homenagem àquele que alegrou meus dias, e que tornou meu 6 de Agosto tão inesquecível.
Porque a banda de Pirassununga fazia essa homenagem por considerar, assim como eu considero, o Seu Edgar o mais importante dos pirassununguenses.
Grande pirassununguense, o Seu Edgar.
De agora em diante o Seu Edgar vai assistir aos jogos do seu time no melhor camarote do mundo. E esse é o lugar que sempre lhe foi de direito.
Viva, Seu Edgar!
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Um balanço na mangueira, um disco das Frenéticas e um terraço de chão gelado.

Minha última visão foi um aceno de mão (poderia ser um "tchau", mas eu tenho certeza que foi um "oi") seguido por um beijo mandado pelo ar.
E eu não pude estar presente quando ela disse tchau.
Mas, e se ela, em sua imensa sabedoria, sabia que não precisava dizer tchau?
Fui uma criança de muita sorte, meus vizinhos eram minha segunda família. Uma família muito diferente da minha, mas que o destino julgou certo colocar nas nossas vidas. Essas duas famílias tinham crianças de mesma idade em gerações diferentes, de tal forma que as meninas mais velhas das duas famílias fossem muito amigas, que os meninos do meio das duas famílias fossem muito amigos e ainda, de tal forma que as duas caçulas (e temporonas) das duas famílias fossem criadas como irmãs.
Eu sou uma dessas caçulas.
Aquela que me mandou um beijo pelo ar é a mãe da outra caçula. Ela era um pouco minha mãe também.
Na casa dela sempre me senti em casa. Ao entrar pela cozinha, sempre fui recebida pela dona da casa como se uma filha de verdade estivesse entrando. E eu entrei milhões de vezes por aquela cozinha.
Havia também a possibilidade de entrar pela sala, mas eu sempre preferi entrar pela cozinha e ter a oportunidade de dizer oi para a dona daquela casa. Sempre tive um carinho especial pela dona daquela casa, talvez por ela ter colocado no mundo aquela que sempre foi a minha irmã, mesmo sem nunca termos tido o mesmo sangue.
Naquela casa nunca precisei pedir licença para nada. Naquela casa nunca precisei pedir licença para ser eu mesma.
Nos encontravamos lá. Nós, as crianças, gostavamos de brincar lá. Muito mais do que brincar em qualquer outro lugar, eu gostava de brincar lá, e de balançar naquele balanço fabuloso que havia na mangueira, no fundo daquele quintal enorme. Eu, que sempre fui louca por balanços, encontrei naquela casa o melhor balanço da minha vida.
Naquela casa eu via tudo com olhos de amor.
Naquela casa onde já havia tanta gente, havia sempre espaço prá mim.
Nas milhões de vezes em que abri a porta na cozinha, nunca percebi o menor sinal de que eu não era bem vinda. Ao contrário, era como se me esperassem, sempre.
Mas eu não pude estar lá, para me despedir da dona daquilo tudo, da dona da mangueira, da dona daquela casa.
E por quantas vezes eu e a outra filha caçula ouvimos, com enlouquecedora frequencia, o disco das Frenéticas. E cantamos juntas as músicas, deitadas no chão do terraço, o lugar mais bem habitado do mundo.
Nesse terraço sonhos tomaram forma, nesse terraço giramos nossos corpos até ter ânsia de vômito, nesse terraço brincamos com os ioiôs da Coca Cola, e fizemos planos para o que faríamos após o almoço. E nesse terraço aplaquei o calor gigantesco do verão, ao deitar as costas em seu chão frio.
Eu não precisava pedir licença, eu simplesmente deitava.
Tudo era muito simples, e por isso, tão perfeito.
A dona da casa, a casa, e tudo o que gravitava em torno delas.
E tudo isso era possível, porque a dona da casa permitia que assim fosse.
Hoje eu não consegui me despedir da dona daquela casa.
Não sei se um dia conseguirei pensar nisso sem chorar. Agora não consigo.
Mas sei, tenho certeza, que a dona da casa sabe que eu estava lá. Mesmo não estando fisicamente, não havia outro lugar no mundo onde eu mais quisesse estar.
Não pude me despedir, então decidi que não vou. Simples assim, como tudo sempre foi. Simples e claro.
Eu não vou dizer tchau.
Porque ela me disse oi e me mandou um beijo, flanando no ar.
E a vida, da forma como a conhecemos é só um átomo, um grão de areia.
Nem a dona da casa e nem a sua vida acabam aqui. Elas continuam, as duas!
Muito obrigada, por tudo.
E até logo, dona Dirce.
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
Se você quiser ter um ceuzinho, não precisa ir longe, é nesse cantinho...
Eu queria ter uma caixinha onde eu pudesse guardar todas as pessoas que me foram caras nesses últimos anos, depois que me tornei mãe.
Pessoas que de, alguma forma, foram importantes prá mim no cuidado, no trato com meus filhos.
Pessoas que gostaram deles.
Tucha, Fernanda e Claudinha, Tio Tucho, Dema, Tereza, Tia Cá, Tio Jalil e Tio Reinaldo, Tia Leleca, Tia Dani, Amanda, Julia de Miranda, Nilda (Tita), Natália, Zilma, Ângela, Aderbal.
Meus pais, meus sogros, meus irmãos e irmãs, meus cunhados, minhas cunhadas...
Seus padrinhos, suas madrinhas...
Meus sobrinhos e minhas sobrinhas...seus primos e primas.
Um tantão de gente que eu queria poder guardar nessa caixinha, queria poder falar com elas sempre que sentisse falta, queria poder agradecer o tempo que dedicaram aos meus filhos.
O Joey ligou prá Tia Cá...respirou fundo, de tão emocionado, e ligou.
Encontrei o Tio Jalil na rua e dei um beijo nele...
Meus meninos foram visitar a Tucha (e ela me ligou, feliz, prá dizer obrigada! Ela me ligou, feliz de verdade! A mesma voz ao telefone, a voz da Tucha, com quem falei por tantos anos, com quem dividi preocupações e alegrias).
E o Joey viu a Dema!
A Tereza está sempre aqui, se transformou em alguém da família.
E os meninos viram a Amanda.
Minha mãe me disse, quando eu estava grávida do Luigi, que eu não deveria preocupar-me, porque pessoas boas encontram boas pessoas na vida.
Nossas vidas foram e são repletas de pessoas boas, que amam meus filhos, pessoas a quem eu devo agradecer.
E eu agradeço!
Eu queria ter essa caixinha, onde poderia guardar todas elas, e delas não me perder jamais!
Acho que essa caixinha existe, e todas elas estão bem guardadinhas dentro dela.
Essa caixinha existe, e seu espaço é infinito.
Essa caixinha se chama coração.
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
Please welcome...The Pixies!

Lá por 1990 eu morava em Campinas, com uma trupe de amigos em uma república na Rua Barreto Leme.
Nessa época, conheci, através das mãos de um irmão meu, em uma visita a ele em Sampa, uma banda chamada Pixies. No dia que ouvi o disco, de nome "Doolittle", gravei-o numa fitinha K7 e levei prá casa, em Campinas.
Nesse dia mesmo, fizemos nossa roda habitual e ouvimos a fitinha mil vezes. Um dos moradores da república ouviu a música "Hey" por 17 vezes seguidas...(desculpa Fá, só mais uma vez!).
Esse LP marcou minha vida.
Essa banda marcou minha vida.
Desde então, venho cultivando uma paixão platônica pelo compositor, cantor e "frontman" da banda, Mr. Frank Black. Eu o chamo de "O gordo" e nutro uma paixonite por ele.
Ele é gordo, careca e esquisito e eu o acho simplesmente demais!
Essa paixonite foi alimentada pelos poucos e bons discos da banda e depois pelos discos solo do "O gordo". Venho cultivando essa paixão há anos.
Hoje é dia 11 de Outubro de 2010. Há vinte anos atrás ouvi Pixies pela primeira vez.
Hoje é dia 11 de Outubro de 2010. Vou ver, pela primeira vez na vida, um show do Pixies.
Mal me controlo de ansiedade...
Novamente, e como se fosse a primeira vez, vou ouvir ele cantar, e tocar, quase imóvel, seu rock and roll. Cru, seco, paulada e doçura juntas.
Mr. Frank Black, ou para mim, simplesmente "O gordo".
E como quando assiti, pela primeira vez, um show do Bowie, do Lou Reed ou ainda dos Ramones, esse dia entra prá minha história. Um dia a ser lembrado.
"I´m just a rock and roll heart, looking for good time" já dizia Lou Reed.
E "o Gordo" vai estar lá, mais careca, gordo e "weird" do que nunca. "Se a gente se conhecesse a gente ia ser amigo" - como disse uma amiga minha.
Rock and rollers, please welcome - The Pixies!
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
Up

É sempre um desafio mudar aquilo ao qual estamos habituados. Mas esse período do ano é particularmente convidativo a essa tentativa.
Vou começar me propondo a desviar os olhos do meu próprio umbigo e ao invés de mirar a mim mesma, quero mirar os jacarandás.
Para onde eu olho, aqui em São Paulo, só vejo os jacarandás floridos.
Mas para vê-los, é necessário olhar para cima, ao invés de ter os olhos permanentemente baixos...
domingo, 12 de setembro de 2010
Paz, saúde e harmonia!
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
João e os ipês amarelos

O João vai chegar essa noite.
Ele vai nascer essa madrugada, da barriga da minha amiga mais antiga. Ele vai nascer da barriga de uma pessoa a quem conheço e amo há 38 anos. Uma pessoa a quem eu considero uma irmã. Portanto, é natural que o João seja sentido, por mim, como alguém que é sangue do meu sangue.
O mês de Agosto é um mês bastante especial para mim.
É o mês de aniversário de várias pessoas especiais para mim. É o mês de aniversário do meu casamento.
É também aniversário, inclusive, da mãe do João.
E é também o mês de aniversário da cidade onde nasci.
O mês de Agosto é o mês de florada dos ipês amarelos. São as minhas árvores favoritas. De longe, são as árvores mais bonitas do mundo!
Estive perto de várias delas esses últimos dias.
Estive em Pirassununga, a cidade onde nasci, e ela estava coalhada de ipês amarelos.
Tive a oportunidade e a sorte de aplaudir suas flores maravilhosas, e aplaudi também o espetáculo de cor que, para mim, representa energia e vida. Os ipês amarelos me deixam feliz.
Não há como negar a coincidência. O João vai chegar no mês da florada dos ipês amarelos. Chega a ser emblemático.
Os ipês amarelos vão, daqui em diante, me lembrar da chegada do João.
E a cada Agosto, com sua florada de ipês amarelos, o João vai florescer também, se transformando no menino amado e especial que eu sei que ele será. E depois, no homem amado e especial que eu sei que ele será.
Só tenho amor pelo João e só posso desejar amor para ele.
Que eles sejam feitos só de amor : seus pais, seu irmão e o João, esse ipezinho amarelo.
(Ao João, com amor)
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